Quem me conhece sabe que me mudei para este fantástico país, chamado Alemanha, há cerca de dois meses. Desde que me mudei que tenho adiado a criação de um novo blog, apesar de já ter o nome pensado (Beritrue Reloaded) há já algum tempo. Será que algum dia criarei o Beritrue Revolutions? Quem sabe...(aqui torna-se óbvia a imitação descarada dos nomes da trilogia "Matrix").
Antes de ter iniciado este primeiro post, tive uma decisão importante a fazer. Em que língua iria escrevê-lo? Continuaria com o Português ou mudaria para o Inglês? Não, o Alemão não seria uma outra hipótese porque (ainda) não o falo fluentemente, e, ao contrário do que possam pensar, apesar de estar na Alemanha, a língua oficial da empresa onde trabalho é o Inglês. Uma vantagem do Inglês é óbvia: a minha audiência seria alargada. Contudo, optei pelo Português, a minha língua nativa e, claramente, com expressões e "dizeres" bem mais engraçados e ricos do que o Inglês...e quem segue o meu blog sabe que a principal razão que me leva a manter um é, exactamente, poder expressar todas as barbaridades engraçadas que me passam pela cabeça, principalmente no que diz respeito aos hábitos e costumes das pessoas que me rodeiam. Se no blog Beritrue Indeed eu tecia os meus comentários sobre estranhos hábitos e manias da cultura portuguesa, neste Beritrue Reloaded espero fazer o mesmo sobre os estranhos hábitos e manias da cultura alemã....e acreditem, há bastantes.
Dito isto, gostaria de avisar que este primeiro post não vai ser a normal palhaçada que me vai pela cabeça. Por isso, antes da palhaçada começar, gostaria de iniciar este blog com umas "barbaridades" sérias que me têm assolado o espírito nos últimos dois meses. As barbaridades engraçadas ficam para os próximos posts.
Passada a introdução, vamos então ao desenvolvimento.
Acho que toda a gente já ouviu dizer que os media controlam/filtram muito daquilo que dão a conhecer ao público. Ou seja, numa sociedade que se pretenda que seja Informada, só passa a Informação que interessa a quem controla os media, ou seja, às empresas privadas da indústria da Comunicação Social. E qual o interesse destas empresas em filtrar a Informação? Basicamente, é o mesmo interesse que os seus accionistas têm em filtrar a Informação. E quem são os accionistas destas empresas? Normalmente, pessoas que ocupam um lugar de poder noutras grandes empresas ou pessoas que ocupam lugares ligados ao Estado. Isto é geral a todos os países, não estou a referir-me em nenhum em particular.
Há uns anos para cá cada vez mais pessoas passaram a ter acesso a um veículo de Informação não filtrado (pelo menos na maior parte dos países), livre, onde cada pessoa pode "mandar a sua posta" e partilhá-la com quem quiser: a Internet. Nestes últimos dois meses fui obrigada a utilizar a Internet como a minha principal fonte de Informação e de Entretenimento, porque a televisão na Alemanha é toda, exclusivamente, em Alemão. Mesmo programas estrangeiros, desde os filmes, até aos desenhos animados, são dobrados para Alemão. Como a mim ainda me faz muita confusão ver um qualquer actor americano a dizer "Was ist los?" em vez de "What's up?", eu tenho sido obrigada a fazer o download de muitos filmes, séries e documentários da Internet, na sua abençoada versão original. Ou seja, basicamente tenho sido obrigada a ir buscar Informação não controlada / filtrada.
Isto, juntamente com o facto de ter vindo para este país mais ou menos na mesma altura em que a crise financeira "rebentou" em grande nos Estados Unidos, fez-me procurar por mais Informação sobre este assunto. Principalmente, a resposta à pergunta "Porquê?".
De forma muito resumida, há dois documentários muitissimo interessantes, disponíveis para download para quem quiser na Internet, que esclarece muita muita, mas mesmo muita coisa sobre como foi possível isto tudo acontecer e, ao mesmo tempo, dão a conhecer verdadeiras barbaridades que acontecem naquele país, principalmente no que diz respeito ao seu sistema de saúde. Reservem a vossa largura de banda para fazerem o download destes dois documentários: "Zeitgeist" e "Sicko", sendo este último do realizador Michael Moore.
No YouTube o documentário "Zeitgeist" está dividido em três temas: Religião, o Sistema Financeiro e o 11 de Setembro. Cada tema está dividido em várias partes, sigam a numeração para verem cada parte na sequência correcta. Vale mesmo muito a pena porque é daqueles documentários que traz "luz" a muita coisa que tem acontecido nos últimos tempos.
O documentário "Sicko" foca-se no sistema de saúde americano. A minha curiosidade sobre este tema aumentou depois de, há dias, ter visto um Republicano qualquer na CNN a falar sobre a política de saúde do Candidato Barack Obama e ter-se referido a este candidato e à sua política de saúde nestes termos "Ele [Barack Obama] quer implementar um sistema de saúde socialista como, por exemplo, o sistema que há na Suécia!". Qual o problema nesta frase? A maneira como este "senhor" o disse... disse-o com o ar de maior desprezo e desdém que se pode imaginar, como se a Suécia fosse um país de Terceiro Mundo. Eu achei isto estranhíssimo, porque, como cidadã da Europa, e como qualquer cidadão Europeu, sempre vi a Suécia como um dos países mais desenvolvidos da Europa (e do Mundo), principalmente no que diz respeito ao seu sistema de saúde! Logo, porquê este Republicano, cidadão Americano, se referiu à Suécia como se fosse lixo?
Eu tinha algumas noções sobre o sistema de saúde americano. Sabia que o sistema de saúde na América é totalmente privado e que há muitos milhões de americanos sem seguro de saúde. Contudo, eu não fazia a mínima ideia no que é que isto se traduzia na prática. Então resolvi informar-me melhor e foi assim que me cruzei com o documentário "Sicko".
O documentário "Sicko" do Michael Moore mostra o que é o sistema de saúde americano, como funciona, o que significa ter ou não ter um seguro de saúde na América e, digo francamente, eu fiz várias expressões de escândalo enquanto vi o documentário porque nunca imaginei que aquele país tivesse implementado um sistema de saúde como aquele, onde o principal objectivo é fazer lucro com a saúde das pessoas. Como? Basicamente, aquela população paga a uma empresa de seguros de saúde (os que podem pagar, que são uma minoria), para depois, no momento em que precisam de activar o seguro, ele ser cortado...É absolutamente inacreditável. Médicos destas companhias de seguro assinam declarações onde recusam tratamento às pessoas...médicos...que recusam tratamento...isto é normal?!
Neste documentário, Michael Moore começa por explorar e escavar o que se passa no sistema de saúde americano e, a seguir, procura fazer o mesmo com esses "diabólicos" sistemas de saúde socialistas que existem no Canadá (mesmo ali ao lado), na Grã-Bretanha e na França. As comparações são avassaladoras para o sistema de saúde americano, até para o próprio realizador que quase não quer acreditar que, nos países europeus, o acesso a um qualquer hospital, qualquer clínica, qualquer serviço de saúde é gratuito.
Sendo evidente que os "sistemas de saúdes socialistas, como na Suécia", não são nenhum bicho-papão como muita gente, erradamente, acredita nos E.U.A., havendo até um documentário feito por um realizador americano famoso que demonstra, sem margem para dúvida, o que é um sistema de saúde socialista, então como é possível que a maioria da população dos E.U.A. olhe para algo que tenha a palavra "socialismo" como se fosse o Diabo?
Pois, neste documentário isso também é explicado, de forma algo subtil. É que aquela malta tem acesso à Informação primariamente através dos grandes canais de televisão (os tais Media que controlam/filtram a informação) e é constantemente bombardeada com comentários como aquele que refere o sistema de saúde socialista da Suécia como o Diabo em pessoa. Ora, num país que se sabe ter uma população extremamente ignorante, que aceita como verdade absoluta tudo o que vê nos principais canais de televisão, é muito fácil fazer a "velha lavagem cerebral": é só ter alguém na televisão a dizer, várias vezes ao dia, que um sistema de saúde socialista é terrível. Mesmo que aquela malta não faça a mínima ideia do que é o socialismo. Não precisam. Basta conseguirem que esta população faça a seguinte associação: socialismo = Belzebu. Simples.
PS - gostaria de esclarecer que não sou socialista, nem social-democrata, nem comunista, nem nacional-socialista, nem qualquer-coisa-acabada-em-ista-ou-ata. Não sou a favor de nenhuma corrente política em particular, sou a favor das boas ideias e da verdade em geral. Referi-me ao sistema de saúde da Suécia como um "sistema de saúde socialista" porque é este o nome que lhe deram. Por mim, até lhe podiam chamar "sistema de saúde batateiro da Suécia", não me interessa minimamente o nome, interessa-me o que ele é e como ele funciona. Se é um bom sistema de saúde e se funciona bem, chamem-lhe o que quiserem, desde que o descrevam tal como ele é na verdade.